O Sindimed-BA e a Associação Baiana de Medicina ressaltam a importância de que seja construída uma agenda sanitária em conjunto com as entidades que tratam a saúde.

Postada em 29 de maio de 2020 as 09:57
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Percebemos que o confinamento prolongado, se por um lado, pode ser meio de evitar uma propagação desmedida, por outro lado, observamos, por exemplo, um aumento do índice de depressão além de outras enfermidades estão deixando de ser atendidas, por conta do medo que se instalou na população, ocasionado pela pandemia da covid-19.

 

Vemos que a redução da atividade laboral e restrição das oportunidades de atuação, aumentando desemprego e dificuldades financeiras, potencializa o adoecimento. Esse quadro pode impactar diretamente nas questões de saúde pública, na Bahia e no Brasil.

 

Muitos países do hemisfério Norte, após restrições de contato social em maior ou menor grau, já retomam suas atividades comerciais e escolares, com cuidados e medidas protetivas, mas em todos os lugares se podem observar efeitos colaterais do confinamento. Por exemplo, já foram registradas na Itália muitas dificuldades de enfrentamento econômico, e, até suicídios, no difícil retorno.

 

Aqui, mais de 80% das pessoas se encontram extremamente vulneráveis, porque vivem só do que produzem. O isolamento social é feito com o intuito de conter a disseminação do vírus, mas é incontestável que consequências são sentidas pela população.

 

No Brasil, um país continental de 211.493.434 habitantes, cada região guarda suas peculiaridades e lida com conjunturas e desafios inerentes. Inclusive com diferentes configurações de unidades hospitalares. Portanto, é necessário o princípio de “pensar globalmente e agir localmente” também no enfrentamento da pandemia.

 

A Bahia registrou, até o dia 25 de maio, 14.566 casos de covid-19. Com população de 14.873.064, esse contingente corresponde a 0,09% da população atual do estado. Do total de infectados, 4.680 já se recuperaram, ou seja 32,2% dos casos. Entre os que testaram positivo para o coronavírus, 20% reagiram mal e destes, 495 infelizmente vieram a óbito, correspondendo a 3,39% dos casos. Os dados são do Ministério da Saúde e da Secretaria de Saúde da Bahia.

 

Até o dia 26 de maio, foram registrados 261 casos de médicos infectados na Bahia.  Segundo dados divulgados referentes ao Plano Estadual de Contingência Covid-19 Bahia, havia no estado, no dia 28 de maio, 1.710 leitos ativos de referência à doença, com taxa de ocupação de 55%. Na data, existiam 714 leitos de UTI (adulto e infantil), com 68% de ocupação. Os números foram veiculados pelo Boletim Epidemiológico Covid-19, da Sesab.

 

Infelizmente, sabe-se que riscos graves de fome e desespero acontecem e acontecerão num crescente. Foi dito que o isolamento seria meio para achatar a curva até estruturação da rede, que nunca foi boa.

 

Acreditamos que, para a definição dos próximos passos, seja necessário ouvir a opinião médica, que está inserida na operacionalização do tratamento e real condução do processo.

 

Sabemos que o emocional (medos, preocupações, temores, desesperos…) interfere e predispõe a somatizações que, na verdade, se traduzem em redução da imunidade.

 

Com uma complexidade raramente vista em escala global, a crise do coronavírus se apresenta como um fenômeno difícil de lidar, que cria múltiplos impactos em todas as esferas da sociedade. Todas as pessoas estão em uma encruzilhada com dilemas relacionados à saúde física e mental e à sua subsistência vital e econômica.

 

A crise da covid-19 convida à interdependência e multidisciplinaridade. Entendemos que todos os fatores incidem concomitantemente e que há crises dentro da grande crise do coronavírus. Nesta fase, não há ainda conclusões fechadas, sob nenhum aspecto, e todo esse cenário da covid-19 é extremamente novo. Ainda não há vacinas confirmadas nem protocolos de tratamento fechados.

 

A incerteza é a tônica e levar em conta os diversos fatores é imperativo. Não há solução fácil nesse cenário de crise. Somos todos convidados a pensar de modo mais amplo nos caminhos para os diversos aspectos da vida em sociedade.

A pandemia é um labirinto em que todos estamos inseridos. Não se consegue achar facilmente a rota para o portão de saída.

 

Como representantes da classe médica na Bahia nós frisamos a importância de que a busca de soluções seja multidisciplinar, com a interlocução dos gestores públicos com as representações de classe da saúde, área especialmente basilar neste momento.

 

Essa crise traz em seu bojo inúmeras outras crises que impactam na sociedade e essa situação complexa em que estamos mergulhados demanda também multidisciplinaridade e inúmeros pontos de vista.

 

Entendendo saúde pública, como uma área necessariamente mais ampla, que envolve não apenas a doença em predominância nesse momento, mas todas as comorbidades e impactos à saúde gerados em decorrência das restrições impostas na pandemia, as entidades médicas alertam ser necessário observar todas as situações decorrentes do isolamento social, não minimizando o fato de que essa medida de contenção do coronavírus pode trazer, por outro lado, consequências preocupantes.

 

Também nos preocupa o fato de que os grandes impactos sociais e econômicos estão gerando muitos casos de agravamento de doenças e suas consequências. Há, por exemplo, o aumento da violência geral e doméstica.

 

O Sindimed, Cremeb e Associação Bahiana de Medicina, inclusive, já se posicionaram anteriormente com preocupação em relação a aqueles pacientes que abandonaram os seus tratamentos.

 

Com tantos fatores agravantes, não é possível pensar no confinamento social de forma simplista. É preciso entender o ser humano dentro da sua totalidade de processos, entendendo que há uma miríade de fatores envolvidos no complexo sistema da vida social. Assim, todas as medidas, devem ser analisadas com ponderação, para que também não se gerem efeitos tão devastadores para as pessoas.

 

De fato, a sociedade está estruturada de modo que todas as pessoas são interdependentes. Interdependência e multidisciplinaridade são conceitos que não podem ser esquecidos neste momento.

 

 

Nós médicos enfrentamos a rotina cotidiana da pandemia, com todas as deficiências históricas dos sistemas de saúde, e entendemos que há multifatores implicados na problemática. Entendemos que Medicina tem uma dimensão social e de saúde, e que pode contribuir nos debates a respeito da formulação de estratégias para enfrentar esse momento difícil.

 

Não podemos ignorar, por exemplo, que a pandemia, de fato, afeta a ordem econômica, destrói empregos e inviabiliza fontes de renda de trabalhadores autônomos e isso se reflete na saúde dos indivíduos. É preciso, pois, pensar de forma mais profunda sobre os impactos ocasionados pelo isolamento social.

 

Queremos ressaltar ainda que, apesar da situação de emergência, governos e municípios não podem negligenciar na comprovação de critérios técnicos para o atendimento das pessoas. Por exemplo, ser permissivo quanto à contratação de profissionais para trabalhar em Medicina, sem o Revalida, só acentua ainda mais os riscos as preocupações com a dignidade e segurança de atendimento à população.

 

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